Uma nova Bastilha foi erguida em Brasília


Por Fábio de Oliveira Ribeiro

No Brasil todas as revoluções são conservadoras. A proclamação da República foi uma vingança dos senhores que perderam seus escravos. A revolução de 1930 foi uma reação da direita ao avanço da esquerda sindical e do tenentismo. O golpe de 1964 destruiu o sindicalismo para acelerar acumulação de capital e excluir a população da política. O golpe de 2016 teve o mesmo conteúdo que o de 1964, com uma diferença: os militares eram nacionalistas e os golpistas devotam amor incondicional ao império norte-americano, a quem pretendem entregar tudo, o petróleo e as empresas que foram construídas com dinheiro público pelos brasileiros.

Desde que assumiu o poder Michel Temer renovou privilégios senhoriais que estavam ameaçados. Dividas fiscais bilionárias foram perdoadas. Os juízes continuam ganhando acima do teto, receberam aumento e, em breve, receberão auxílio-moradia retroativo com juros e correção monetária. As piranhas do Exército (filhas solteiras dos oficiais) não deixaram de receber suas pensões suculentas. O combate ao trabalho escravo foi interrompido. As piranhas do Congresso (filhas solteiras dos parlamentares) voltaram a receber pensões invejáveis. O TST liberou as demissões em massa sem interferência dos sindicatos.

Todo o peso do golpe é suportado pelos pobres. Os brasileiros perderam seus direitos sociais, trabalhistas e previdenciários. As novas relações trabalhistas são semelhantes às que existiam antes da escravidão e os processos contra os escravocratas se tornaram mais caros e duvidosos. A Ministra do Trabalho foi escolhida a dedo: ela foi condenada justamente porque violou a CLT. A moralidade deixou de ser um princípio basilar da atividade públicas.

Em 14 de julho de 1789 a queda da Bastilha simbolizou a destruição dos privilégios dos aristocratas franceses. Em 31 de agosto de 2016 a queda de Dilma Rousseff significou a reconstrução da Bastilha no centro da política brasileira. Isso explica inclusive porque a PF já está perseguindo as pessoas que desafiam o governo do usurpador e ameaça usar a Lei de Segurança Nacional para censurar a internet durante as próximas eleições.

Tudo está ocorrendo de acordo com o plano concebido pela CIA. Após ser recrutado pela Embaixada dos EUA, Michel Temer agiu como um espião do governo brasileiro. Empossado, ele destruiu o que restava da democracia brasileira com ajuda das oligarquias políticas e judiciárias. O processo de reconstrução do Brasil ainda não começou e certamente será doloroso, enquanto isso a pilhagem dos nossos recursos minerais, petrolíferos, aquíferos, territoriais e até tecnológicos (Embraer) segue de vento em popa.

O Exército se resignou a ser uma tropa de ocupação. A missão dele não é mais defender o Brasil de uma agressão externa e sim dar garantia, em última instância, de que os brasileiros não terão sucesso se reagirem à agressão sistemática que estão sofrendo. A candidatura Lula será inviabilizada. Se ganhar a eleição ele será impedido de governar por uma imprensa que é controlada pelo dinheiro estrangeiro e pela ambição dos barões da mídia de controlar a agenda pública do país para garantir lucros privados crescentes num ambiente de deterioração econômica inevitável.

A reconstrução da Bastilha, porém, não deixará de ter um custo. Sabemos exatamente quem irá pagar a conta: os inocentes sofrerão primeiro, mas a longo prazo os perdedores serão os juízes. Eles queimaram a última reserva de credibilidade que tinham. Nunca mais eles poderão desfrutar tranquilamente seus privilégios senhoriais.

Useful links