EUA: Da importância de fazer-se de perigosíssimo


Por Dmitri Orlov

Não é sopa ser hegemon global e única superpotência mundial. É indispensável manter em linha todo o planeta. Cada país tem de ser posto no lugar, e lá ficar, quieto, sendo preciso, à força. Vez ou outra é indispensável conquistar ou destruir um país ou dois, só para que os outros aprendam o que é bom prá tosse. E ainda é obrigatório viver a se intrometer na política dos mais diferentes países, viciando eleições, roubando votos, de modo que só candidatos amigos dos EUA sejam eleitos. E sem parar de organizar operações para mudar governos e organizar revoluções coloridas. É você parar... e alguns países imediatamente começam a viver como se você nem existisse. E logo o resto todo rapidamente perceberá que você está perdendo o controle. E lá se vai, cada país por decisão sua, para onde bem entender.

Serão os EUA, ainda, a maior potência mundial, em pleno controle sobre todo o planeta, ou esse momento histórico realmente já é passado? Todos os dias ouvimos que a situação está cada vez mais grave: que as relações entre os EUA e os países da OTAN e a Rússia vão de mal a pior; EUA estão em guerra comercial com a China; a Coreia do Norte fez o que bem entendeu e continua tão nuclear como sempre, e uma vergonha para os EUA. Muitos garantem que estamos muito próximos de uma guerra mundial. Mas... "muito próximos" significaria exatamente o quê?

Qualquer um pode passar horas com os pés pendurados à beira de um abismo e nunca pular. Suicídio é decisão grave: grave para uma pessoa, só ela, muito mais grave para um país enorme.

Dia 1/3/2018 o presidente Putin mostrou ao mundo os novos sistemas de armas da Rússia, contra as quais os EUA absolutamente não têm como se defender, e assim continuarão ainda por décadas e décadas. Antigamente, o plano era cercar a Rússia com bases militares e baterias de mísseis, depois lançar um primeiro ataque atômico preventivo, destruindo toda a capacidade dos russos para retaliar, e obrigar a Rússia a capitular.

Esse é o plano que já se sabe, com certeza absoluta, que falhou. Um ataque de EUA/OTAN à Rússia só tem hoje, de garantido, que será ato de suicídio nacional. Pior que isso: até confrontos militares limitados já são quase todos impensáveis, porque a Rússia pode causar dano insuperável, portanto inadmissível, às forças de EUA/OTAN, e mantendo-se, os russos, a uma distância segura, sem pôr em risco seus próprios homens, mulheres e armas. Se a Rússia não atacar, EUA/OTAN não têm a que revidar. Quem consegue uma guerra, com inimigo desses?!

Os novos sistemas de armas russas tornaram possível começar a ignorar completamente os EUA. Ainda é possível fingir alguma pose militar crível, mas os EUA já perderam o comando político; assim como perderam toda a credibilidade as instituições globais sobre as quais repousou o poder dos EUA.

Longe daquele quadro, o que se vê hoje é a reemergência de nações-estados, até de novos impérios. O futuro político da Síria está sendo decidido por Rússia, Turquia e Irã, sem qualquer colaboração prestável que lhes chegasse dos EUA. Significativamente, embora Rússia e Irã fossem independentes e autônomos, no que tenha a ver com os EUA, a Turquia sempre foi aliada dos EUA e a segunda maior força armada das que constituem a OTAN. O fato de que a Turquia já não se dedique a fazer o que mais agrade aos EUA é muito eloquente.

Exceto durante o estranho e tumultuado século 20, durante o qual os EUA por breve período brilharam rapidamente sobre o palco do mundo, esses três países – Rússia, Turquia e Irã – atenderam por nomes diferentes, os quais, todos, começavam com "Império": o Império Russo, o Império Otomano e o Império Persa. Dos três, os impérios russo e otomano foram herdeiros do Sacro Império Romano, cuja metade ocidental, com sua capital, Constantinopla, sobreviveu durante séculos, até muito depois de Roma já estar transformada em ruína sem habitantes, e de ter descido sobre a Europa uma Idade das Trevas.

Depois que Constantinopla caiu frente aos turcos, e o Islã passou a predominar na região, o centro da Cristandade Ortodoxo migrou para o norte, para Moscou. Agora acrescente a China, ou o Império Chinês, se quiser, que hoje está alinhado com a Rússia, e complete o quadro: todos os grandes e mais antigos impérios eurasianos voltaram e estão conversando e cooperando, e o arrivista ex-imperial do outro lado do mundo sequer foi convidado.

Dada essa situação, o que fazem os EUA? Têm três possibilidades. A primeira é começar uma grande guerra, com o que estarão cometendo suicídio nacional (mas, sim, arrastando com eles outros países). Não têm a vontade política para tomar essa decisão, embora possa acontecer de se meterem, por acidente, numa grande guerra. A segunda possibilidade é basicamente render-se: desistir de tentar projetar poder pelo mundo, recolher-se para dentro das próprias fronteias e lá ficar, lambendo as feridas. Os EUA tampouco têm a necessária vontade política para fazer isso; só lhe resta, no reino do possível, fingir que vai tudo bem, pelo mais longo tempo que consiga.

Sim, mas, como é possível fingir que vai tudo bem, ainda que tudo esteja caindo aos pedaços? A resposta é começar a agir como se tudo estivesse bem. Se os EUA dão jeito de convencer número suficiente de pessoas, em casa e pelo planeta, de que ainda são força perigosíssima e temível, nesse caso talvez ainda consigam esconder o próprio enfraquecimento galopante, pelo menos por mais algum tempo.

Os EUA já não podem alcançar qualquer dos objetivos a que se dediquem, mas ainda podem causar muita desgraça e muitos assassinatos em massa, como ficou demonstrado recentemente, no bombardeio pela "coalizão" dos EUA contra Mosul e Raqqa, hoje em ruínas. Atos semelhantes de morticínios-show em diferentes pontos do mundo também aconteceram no Iêmen, cometidos pela Arábia Saudita, representante local, lá, dos EUA, e também pelos representantes locais ucranianos dos EUA no Donbass.

Mas até as ocasiões para cometer assassinatos-show em massa em total impunidade vão-se tornando cada vez mais raros e mais distantes daqui até lá, o que está forçando os EUA a recorrer a mais atos de violência de vitrine de boutique. Para justificar esses atos, os EUA (e grande parte da Europa) isola-se do resto do mundo fazendo-se cercar por uma elaborada muralha de completo imbecilismo e nonsense.

Um dos tropos favoritos tem a ver sempre com armas químicas deliradas, usadas como o principal agente de apavoramento.

Considere-se o recente ataque de Israel contra a Síria. Claro. Para justificar a barbárie, usaram-se filmes evidentemente forjados produzidos pelos "Capacetes Brancos" – grupo conhecido por encenar falsos ataques de terroristas. Agora, já nem mais se preocupam com o quando claramente falsos são os produtos que vendem: dessa vez, já nem se deram o trabalho de tirar, na edição o clapper (necessário para sincronizar vídeo e som). O cenário era, visivelmente, cenário de cinema, mas o/a continuísta era amador incompetente. Os atores até usavam os capacetes brancos indispensáveis à 'identificação', mas só o capacete! Nenhum outro item de proteção, enquanto borrifavam água sobre criancinhas trêmulas. Que loucura! Quem, no mundo, acreditaria numa falcatrua dessas?!

E sem esquecer que os foguetes (os sírios teriam disparado cinco foguetes, dos quais só três explodiram) vieram de Israel. Por que Israel? Porque os russos alertaram os EUA de que tinham informação de um falso ataque com armas químicas, como ato de provocação, que estava sendo preparado como pretexto para um ataque com foguetes, e que os russos derrubariam não só os foguetes, mas também quem/o quê lançasse os foguetes. Assim sendo, os EUA, em gesto de impressionante dignidade e coragem, acharam que seria arriscado demais lançar os ataques diretamente de seus próprios navios; então pediram que Israel fizesse a gentileza de meter uns poucos mísseis numa remota base aérea síria. O gesto de dignidade e coragem dos EUA visava a conseguir que os russos, então, imediatamente atacassem Israel, mesmo que nenhum russo fosse ferido e sabendo-se que não havia russo algum naquela base aérea no momento do ataque.

Por um lado, chega a dar pena. Mas por outro mostra que os norte-americanos ainda são capazes de levar a cabo algum – qualquer um – plano racional.

Essa, pois, é a estranha quadra da história pela qual estamos passando. Os EUA mentem sem parar (dado que a verdade não está ao lado deles), ao mesmo tempo em que fingem que ainda são perigosíssimos, cometendo os mais alucinados atos de assassinato-show em massa (massa, mas em pequena escala, o que garante que se safem impunes). Pelo menos, enquanto as duas outras possibilidades – suicídio nacional (via guerra em grande escala) e a decisão de acabar, de vez, com todo o projeto imperial – continuam politicamente impossíveis.

Ainda não se sabe por quanto tempo pode durar esse período estranho, instável, de nonsense assassino – mas obviamente não pode durar eras. Dou-lhe uns poucos anos. Menos ainda.*****

FONTE:

http://blogdoalok.blogspot.com.br/2018/04/eua-da-importancia-de-fazer-se-de.html

Useful links