Como os padrões jornalísticos são usados contra jornalistas


A decisão do Washington Post de publicar acusações de abuso sexual sem checar é o exemplo mais perturbador do achatamento da mídia desde que o jornalismo político decidiu gastar mais tempo nos e-mails de Hillary Clinton durante as eleições de 2016 do que em todos os escândalos de Donald Trump juntos.

*Por Issac J Bailey

Neste novo mundo da mídia, nosso trabalho não é só nosso. As decisões que tomamos não cabem unicamente a nós. E mesmo depois de termos feito o que acreditamos ser a escolha certa e jornalisticamente ética, uma organização não-jornalística ou quase jornalística pode nos levar a desfazer nossas decisões originais.

Foi o que aconteceu com o Washington Post.

O que é mais desconfortante é que não há uma solução simples para os novos dilemas que parecemos encarar diariamente.

Mais de 1 ano atrás, uma mulher abordou o Washington Post alegando que Justin Fairfax, agora vice-governador da Virgínia, havia abusado sexualmente dela. Como o Post informou em 4 de fevereiro:

“A mulher se aproximou do Post depois que Fairfax venceu as eleições em novembro de 2017 e antes de tomar posse em janeiro de 2018, dizendo que sentia que tinha obrigação de falar. A mulher e Fairfax se conheceram em Boston na convenção nacional democrata de 2004”.

O Post fez o que boas agências de notícias fazem: relatou as alegações no terreno. No final dessa jornada, decidiu que não tinha o suficiente para ir para a imprensa. Não poderia verificar nenhuma versão da história, Fairfax ou seu acusador. A história era equivalente a 1 excruciante “ele disse, ela disse” que aconteceu em 1 quarto de hotel sem nenhuma testemunha e maneira de corroborar.

A mulher não tinha contado a ninguém mais sobre as alegações nos 13 anos desde o encontro –uma ferramenta de verificação que foi útil no caso de Christine Blasey Ford contra Brett Kavanaugh, por exemplo– que Fairfax e o acusador admitiram pelo menos ter começado consensualmente. É o tipo de história que mesmo os estudantes de jornalismo do primeiro ano aprendem a ser cautelosos, ainda que acreditem no acusador, porque crença não é o suficiente. Verificação deve ser o padrão.

Dado o poder e a presença do movimento #MeToo, e o número de dicas envolvendo denúncias contra figuras públicas proeminentes que fluem para as redações em todo o país, há 1 bom debate sobre qual tipo de verificação deve servir como o mínimo padrão jornalístico ético para publicar tais alegações. O mesmo ocorre com os promotores, que também enfrentam tais questões antes de seguir adiante em seus casos e apresentar uma acusação. A natureza da agressão sexual não fornece respostas fáceis para o nosso dilema de reportagem.

O maior dilema é não ser impelido a relatar o que sabemos que não atende aos padrões já estabelecidos.

No caso dos e-mails de Clinton, o ritmo de pinga-pinga-pinga do vazamento do WikiLeaks, projetado especificamente para prejudicar Clinton, abalou a capacidade da mídia em geral de controlar o que e quando escolhemos publicar, mesmo enquanto continuávamos fingindo que estávamos no controle porque nós verificamos cada cache de e-mails antes de escrever nossas histórias. Nós não percebemos que o ritmo dos vazamentos foi o que criou a notícia –uma narrativa política que se alimentava de si mesma em quase 24 horas por dia, 7 dias por semana– e não uma revelação específica dos e-mails.

No caso do Post e da história de Fairfax, o jornal decidiu publicar uma reportagem sobre acusações de agressão sexual não verificadas depois que o chefe de gabinete e diretor de comunicações de Fairfax fez uma declaração sobre tais alegações –somente após as alegações terem sido publicadas pelo hiper-partidário site da Big League Politics. O Post, e outros, ajudaram o site a atingir seus objetivos, da mesma forma que ajudamos involuntariamente a Rússia e o WikiLeaks a derrubar o ciclo eleitoral de 2016.

O Post parecia relatar a história apenas para refutar parte da declaração de Fairfax, que afirmava que o jornal havia originalmente se recusado a publicar porque havia encontrado “sinais de alerta e inconsistências significativas dentro das alegações”. Sem novas revelações ou verificação de fatos importantes, a decisão do Post de publicar as alegações mais de 1 ano após ter acesso –mesmo que apenas para refutar a caracterização de Fairfax– parece errada. Mas a decisão de não publicar também não teria parecido muito boa.

No ambiente midiático de hoje, grupos não jornalísticos ou quase jornalísticos têm cada vez mais poder e influência para criar agendas noticiosas e estabelecer narrativas. Eles sabem como usar nossas tradições bem estabelecidas contra nós. Precisamos ter 1 senso de urgência mais apurado se quisermos efetivamente encurralar essa crescente ameaça.

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Issac J Bailey é colunista e escritor senior no The Sun News na Carolina do Sul. Bailey já contribuiu para os jornais, Politico, CNN e Esquire.

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O texto foi traduzido por Gabriel Alves.

FONTE:

https://www.poder360.com.br/nieman/como-os-padroes-jornalisticos-sao-usados-%E2%80%8B%E2%80%8Bcontra-jornalistas/

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